terça-feira, 18 de abril de 2017

As idas e vindas de um fluxo chamado VIDA!!!!!

Já faz um tempo que tenho pensado na importância de elaborar uma vida frugal sem sair de casa. Afinal, em idos de consumo desenfreado, o tudo que se constrói ultimamente no imaginário popular em termos de "criatividade" tem perpassado dinheiro e ansiedade, cobrança e expectativa. 

Crianças trocam pipas, jogos de queimada e peões por jogos eletrônicos de toda sorte. Adultos trocam a ludicidade da contemplação da Natureza e do ócio criativo por longos passeios em shoppings centers. 

Casais e famílias teclam nervosamente seus celulares, indiferentes uns aos outros, em uma simples mesa de almoço. O mundo, enfim, tornando-se cada vez mais robótico, as relações mais frias e líquidas e o humano se diluindo na paulatina desconexão com o Todo.

Nunca fui muito fã disso, mas, agora, na fase madura da vida, tenho sentido necessidade vital de manter uma rotina de tranquilidade no pequeno grande mundo mágico em que sempre vivi. 

Não se trata de uma polarização. Não "saio" ou "entro" em uma redoma ou abóboda, indo e vindo do trabalho para casa. Nada disso. A egrégora vai junto, para onde quer que eu me dirija. A magia, a Deusa, os elementos e a energia estão sempre em meu coração a partir da imersão feita no imanente sagrado, muitas vezes invisível para quem não se permite enxergar a vida com os olhos da alma. 

Algumas pessoas podem perguntar como... sim, enfim, como sentir isso? 

Como elaborar isso? 

Não sei dar a receita (aliás, sou péssima nisso de estratificar a vida em metodologias que envolvem intuição), pois não tenho respostas para toda a humanidade. No máximo posso pensar no que me faz verdadeiramente feliz e, a partir daí, compartilhar a experiência, sempre certa de que isso é apenas uma descrição para quem não experiencia no coração a presença de algo maior do que a própria existência.

Coração...

Sim, primeiramente o coração, músculo mais forte do corpo humano, lar sagrado da expressão de amorosidade, emotividade e sentimento. 

Epicentro orgânico do quarto chacra ou vórtice energético a representar a transição do plano material ou terreno (imantado nos vórtices da raiz, umbigo e do plexo) para a ascensão no laríngeo, frontal e da coroa (apenas para citar os mais conhecidos, já que as camadas energéticas se ampliam ad infinitum).

O coração vem e vai em reveses durante a vida, compondo a singularidade de nossa senda ao longo de várias dimensões de existência, em encontros e desencontros responsáveis pelo aquilatamento da alma. Amar, nesse sentido, é o objetivo a se confundir com o caminho, pois trata do combustível a alimentar a vivência no plano da lapidação do espírito.

Se estamos aqui para amar, amemos, pois. 

Isso passa necessariamente por uma permissão que nos damos, uma licença poética para a felicidade. Só é possível amar quando abrimos nosso coração para as experiências do amor, ainda que contingenciais e momentâneas. Não importa a duração, pois o tempo é uma mera conjectura humana para dimensionar reações de dimensionalidade não compreendidas além da racionalidade. 

O medo de abrir o coração e de se permitir acaba nos congelando e alojando em quartos obscuros de fuga, quase sempre confundidos com sabedoria e parcimônia em "saber fazer escolhas" diante de rotas de sofrimento. Mas, ao menor sinal de carência e solitude (somos gregários), quedamos a pensar na (in)felicidade de não estar ao lado de alguém que amamos. 

Não, não se trata de "(in)felicidade em estar só", bem diferente. 

Somos paradoxalmente solitários em nosso sentimento gregário, dada a singularidade com que formulamos a sensação de ego apartado da experiência una. 

Ser uno e íntegro nessa solitude é tal qual essa foto ao lado: olhando para o alto percebemos o calor da Natureza que nos abraça e diz "estou com você nessa caminhada". 

Refiro-me à sensação de não estar ao lado de quem amamos incondicionalmente na experiência dual de compartilhamento afetivo.

Para além das relações de parentesco e de amizade, coleguismo ou de empatia, as relações afetivas de comunhão global (emocional, mental, sexual, intelectual etc.) nutrem a alma para o amor encontrar fértil terreno. Abrir, portanto, o coração para isso constitui uma ímpar experiência de plenitude. 

Quando o amor escolhe não escapamos ao inevitável: as idas e vindas que nos alojam no mesmo eixo de permanência do sentimento intacto. Passam os anos, somam-se as desavenças, mas, ao final dos ciclos, o que é é e, nesse sentido, tudo volta.

Permeiam-nos as separações e os atropelos mas, enfim, tudo volta no giro da roda que nos move para o mesmo ponto de uma espiral: os giros e vórtices vão para a frente, mas os encontros entre os nodos formando a constância de uma linearidade da perpetuação do sentimento...

Quando nos permitimos viver isso com alguém que comunga do horizonte de percepções e valores sobre o viver, é uma benção dos deuses. Esse é o vetor do que acima pontuei como uma diversão caseira despretensiosa e sem sair da vibração de plenitude e aconchego.

Um singular final de semana com a pessoa certa no lugar certo (lugar de alma) marcam a felicidade que não tem preço. Nada de televisão (desapeguei-me da minha mês passado), internet ou sequer música. Apenas (e que apenas!) Natureza em estado de graça ocupando seu lugar de rainha absoluta de nossas ocupações e atividades. 

Nada como dividir a sensação de renovação na cachoeira a limpar nossa alma e depurar o espírito cansado pela rotina do automatismo! Cada dia em que compartilhamos a Cachoeira do Falcão aqui no condomínio mostra uma novidade a ilustrar nosso caderno de experiências inenarráveis. 

Desta vez ousamos andar pela trilha do rio - uns 6 ou 7 km até a Administração do Condomínio - em uma aventura mágica e acalentadora, silenciadora da mente para uma verdadeira abertura ao desconhecido. 

Saímos por entre as pedras em direção ao leste, percorrendo, durante uma hora e meia, os contornos do condomínio, numa jornada espiritual de imersão no Todo. Não sabia ao certo o que nos aguardaria no decorrer do trajeto, mas a confiança deu a tônica do percurso de pura descoberta. 

Encontramos lindas borboletas azuis e aranhas em suas teias bem arquitetadas. Umas chegavam a cruzar as margens do rio por cima, fazendo com que tivéssemos que ter cuidado em nos abaixar para não desafazer o que a tecelã havia construído.

Seguimos o fluxo descendente da água a nos revelar o caminho. No coração, de início, aquela ansiedade em relação ao que não se conhece ou compreende. 

Aos poucos, contudo, tudo foi silenciando e o coração passou a comportar apenas a calmaria na confluência em relação aos mistérios que a Natureza, pouco a pouco, passou a compartilhar conosco. Encontramos construções abandonadas, que me levaram longe, aos henges antigos cuja construção ainda hoje é mistério. 


Cada curva do rio uma nova surpresa se esquadrinhava bem diante de nosso  olhos! 

Ao mesmo tempo observei a ação humana que motivou a Natureza a dar sua bem elaborada resposta nos processos erosivos de acomodação do solo para que a Grande Mãe pudesse seguir seu curso sem pedir licença. Ou, ainda, esculturas modeladas pela ação dos elementos em harmonia embelezaram o caminho ao longo do rio. 

Descomunal e grandiosa Natureza, que deixava para trás todo e qualquer vestígio de relevância do mundo de urbanidade, trazendo, com isso, aquela sensação maior de desapego em relação ao que não constitui relevância no plano de harmonia e conexão com o Todo. 

A racionalidade que tanto nos destroçou em termos de descompromisso com o outro nesses idos de pós-modernidade sequer constituiu lembrança durante esse passeio nutridor de egrégora. 

Em seu lugar veio a sensação de bem-estar em meio à paz necessária para se reelaborar uma vida de desalojamento e atemporalidade, o essencial para a desprogramação mental em rede que se calcificou em nossas mentes ao longo dos vinte últimos anos de artificialidade confundida com vida. 

Ao final do dia e do passeio, as luzes cederam espaço à transmutação operada pelo fogo ardente imanado pela dança sibilante das salamandras. Não precisa muito para uma fogueira: um pouco de pedras colhidas por aqui mesmo no jardim, um buraco para assentar o fogo, gravetos e cascas providos pelas árvores do quintal. E muita inspiração do ar que alimenta o fogo!

Enquanto percebia a dança dadivosa, os pensamentos já desacelerados voltavam-se para a certeza de estar no caminho certo. 

O sinal? Sim, a prosperidade da alma a imantar no plano material tantos resultados agradáveis. 

Passeios, fogueira, horta, conversas, tudo flui quando estamos de bem com nossa chama interna. 


A horta não passou incólume e, juntamente com todo o rol de vastas experiências agradáveis compartilhadas ao lado de quem se ama verdadeiramente, 
deu o tom de diferenciação em relação ao cenário de benignidade. A escolha das verduras, a forma de plantio, o horário, tudo fluiu no consenso e no diálogo. 

Agora é só esperar o crescimento das plantas de acordo com o ciclo da Mãe Terra, a verdadeira forma de organização que está longe, bem longe do calendário gregoriano artificial, forjado na efêmera e ilusória tentativa humana em controlar a sazonalidade. O ciclo lunar que me guia em meu ventre é o leme desta saga maravilhosa de comunhão com a terra rumo à subsistência simples, saudável e definitiva. 

O mais interessante em tudo isso diz respeito ao lapso de tempo, pois a intensidade de toda essa atividade pode dar a entender se tratar de um período de tempo longo. Mas não. 

Toda essa intensidade feita em singelos dias do final de semana em que ficamos em televisão, internet e música. Apenas ouvindo o coração um do outro e nos embalando pela voz interior a nos coligar à Natureza que tão amorosamente nos brindou com sua abundância de propósitos. 

Não precisamos de muito para a felicidade: apenas nos predispor a ela a partir da abertura docilizada de nossos corações, ouvindo o que a alma murmura como norte a nos elevar! No fluxo e refluxo da vida, tal como as idas e vindas das sazonais águas de um rio, reside a constância em se contemplar a vida com sabedoria...Bem-vinda, Natureza! Gratidão por tudo a compartilhar!




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