terça-feira, 22 de novembro de 2016

Liberdade, Arte e Soberania

Quando lemos - a partir do paradigma "oficial" - as histórias deturpadas sobre bruxas más que tentam corromper as princesas, logo nos deparamos com um retrato caricato: velhas, corcundas, verruguentas, rabugentas, antissociais e... solteiras

A "velha bruxa" invejosa sempre deseja diluir os sonhos casamenteiros das princesinhas adormecidas, que esperam inertes pelo beijo de despertar. A partir daí, um mundo novo se apresenta para as noviças, que supostamente alcançarão o ápice de suas vidas na legitimidade que lhes confere o garboso príncipe beijoqueiro. 

Antes do beijo, princesas imaculadas...

Depois do beijo, a felicidade que só faz sentido se existir um príncipe que torne a existência da princesa factível. Absurdo? Até uns tempos atrás, inspirador de gerações de mães que, desejosas em recriar a fábula, transformavam suas filhas em princesas resignadas, condicionando-as ao caminho do automatismo emocional...

Os contos de fadas e a mitologia celta operam no contra fluxo desse modelo estereotipado de final feliz, sendo até mesmo considerado pouco sangrentos, por reunirem elementos excêntricos de narrativas. Um dos ingredientes principais - revelador dos mistérios e segredos mais abscônditos - reside na total inversão de perspectiva quanto à aparência: nas histórias celtas, usualmente a beleza guarda perigos, enquanto a feiura esconde segredos revelados usualmente por uma quebra de algum encantamento.

Vejam a narrativa do Casamento de Gawain, por exemplo, uma história conhecida também pela Soberania (Ou Sir Gawain e a Dama Abominável), na qual o rei Arthur é concitado por uma velha feia a romper um feitiço, não se antes prometê-la em casamento a um de seus cavaleiros, Sir Gawain. Na noite de núpcias em que a horrenda mulher se apresenta para ele, deve Gawain decidir se deseja tê-la bela durante o dia e feia à noite ou o contrário. 

O cavaleiro, resignado com seu destino selado pelo monarca, fala para a anciã que ELA poderia escolher o estado que melhor lhe aprouvesse e, a partir de tal fala, sem perceber e de boa-fé, quebra o encantamento que um bruxo lançou sobre a anciã - na verdade, uma princesa. Caso clássico de encobrimento por intermédio da ilusão da aparência, mote das histórias celtas.

Outro ingrediente importante - e ponto de reflexão dessa postagem - diz respeito à posição das mulheres nos contos celtas. Ao contrário das histórias tradicionais europeias em que a mulher é submissa, ingênua e fadada ao destino de se coligar ao homem para compor a completude, os contos celtas apontam heroínas protagonistas de suas histórias, que não demandam complementariedade binária para serem íntegras.

As deidades celtas - Morrighan, Macha, Ceridwen, Maeve, entre outras - estão longe de encarnar o papel de acessoriedade com que elaborou um arquétipo de mulher empoderada. 

Morrighan deita-se com Dagda na vau do Shannon e abençoa os Tuatha em uma das batahas contra os invasores do Eire. Enamora-se de CuChuláin e, diante da ofensa contra ela irrogada pelo guerreiro, envia o séquito de corvos para se alimentarem das vísceras do herói ferido em sua última batalha.

Macha vive com Crunniuc até o momento em que o marido dá com a língua nos dentes e revela ao Rei Conchobar que a esposa corria mais que os cavalos reais. Exposta ao ridículo e obrigada a correr estando grávida de gêmeos, a deusa não perdoa o marido: retira-lhe todas as bençãos (colheita, fartura, abundância e felicidade), amaldiçoa os homens do Ulster e simplesmente vai embora com seus filhos.

Maeve, a rainha plena, tanto se deitava com quem bem entendesse, como, também, era o cabeça do casal, pois no casamento celta que liderava a família era o consorte que trouxesse um dote maior, independentemente de ser homem ou mulher. Ceridwen era a deusa anciã, guardiã dos segredos do caldeirão do conhecimento, que engravida e dá à luz a Taliesin, uma das personificações de Merlin, sem ser fecundada por um encontro carnal com um homem. 

São muitas as histórias de bem sucedidas "solterices" e não é sem propósito que, na maior parte dos contos e das histórias celtas, as mulheres constroem suas sendas na solitude, sem o vínculo matrimonial, a despeito - como no caso de Ceridwen acima narrado - de exercitarem, por exemplo, a maternidade.

As "bruxas" solteiras, nesse paradigma, dão o alerta para o véu ilusório da aparência de beleza que se encerra por trás das historietas medievas: finais felizes de nulificação do feminino, que soterra a sabedoria ancestral encoberta pela feiura da bruxa má. É um recado iniciático: desnude o véu da ignorância sobre as questões do mundo físico que a senda dos segredos etéreos se revelará para quem ultrapassa a fronteira do que é visível apenas para os olhos físicos. 

Dito de outra forma: da transcendência da obviedade que a aparência física mostra reside a sabedoria do conhecimento do oculto e do sagrado, tangível apenas pelo acesso que os olhos da alma revelam. O vórtice frontal aloja fisiologicamente - entre as sobrancelhas - a glândula pituitária que, associada à pineal, concentram enorme capacidade cognitiva em nível de processos intuitivos conscientes, um bom começo para se falar em transcendência do visível.

Laurie Cabot em seus dois livros (O despertar da bruxa em cada mulher e O poder da bruxa), compartilha técnicas interessantes de acionamento dessas glândulas. Batidinhas leves no meio da testa, com o polegar indicador, dedo médio e anular unidos também produzem um despertar de consciência do terceiro olho, que se abre, aos poucos, para perceber os processos quando nossos sentidos basilares não conseguem. Automassagem com unguento ou óleo essencial de sândalo ou alfazema produzem um efeito catalisador da abertura subconsciencial, sendo de grande valia para a abertura ou conexão. 

Quando nos permitimos "olhar" com os olhos da alma o que se nos apresenta, começamos a observar detalhes passavam outrora despercebidos, como, por exemplo, no meu caso, tenho me dedicado - ao longo da trajetória - a me observar melhor nessa questão de lidar melhor com a liberdade e soberania, o bastante para não mais cogitar em sequer permitir qualquer arranhão em minha essência, sobretudo, nas escolhas em termos de afetividades.

A questão é bem simples: não existe uma regra para a vida em liberdade na Arte e no Sagrado Ofício iniciático. Conheço bruxas solitárias, bruxas noivas, enamoradas, viúvas (hahaha, boa parte da minha família materna) e casadas. Também conheço bruxas solteiras, mães solteiras. Cada uma com seus desafios, bençãos e propósitos, levando-me a piamente crer - por experiência própria - que o caminho de cada uma lhe é inerentemente peculiar, não existindo uma lei - ao contrário das histórias infantis - apregoando que "bruxas não se casam", ou, ainda, "bruxas não têm filho/as". 

Esses "mantras de certeza" trazem cobrança e violação à alma, além de impedirem a experienciação de novos horizontes. Creio que estamos aqui de passagem, nessa que é uma, dentre várias possíveis existências e, por conta disso, a viver a senda, com todos seus desafios, é essencial para a lapidação da alma. Com ou sem alguém. Mas sempre na plenitude de percorrer com dignidade o caminho.

O caminho é o objetivo, estar ou não com alguém é a contingência. Para a mulher empoderada, a "bruxa" plena e consciente de seu poder, percorrer com liberdade e soberania o caminho é a única forma de se conhecer, de compreender suas sombras e seus desafios e, com isso, galgar voos cada vez mais altos. 

Compartilhando minha experiência, gosto de viver na solitude, sinto-me extremamente bem no aconchego do meu lar e na companhia de meus familiares. Ao elaborar um relacionamento, não busco completude de alma, pois me encaro como plena, não me faltando pedaço. O outro não é uma muleta para mim e, dessa forma, procuro manter sempre a autonomia - não porque seja uma meta, mas porque minha alma é assim. 

Tive relacionamentos que iniciaram tal qual as fábulas das princesas, desnudando-se, pouco a pouco, para situações em que minha boa-fé foi colocada à prova, bem como minha sacralidade. Findaram-se, mostrando que, para a alteridade, pode ser complicado efetivamente viver uma senda ao lado do feminino liberto. 

Nesses casos, meus olhos da alma me mostravam o que eu mesma, com os olhos físicos, recusava-me incessantemente a ver. Pode demorar um pouco, ou, então, até mesmo várias eras e existências, mas, em algum momento, a sensação de volta à morada da alma passa a compor a deliciosa melodia da plenitude. Eis o segredo: sensação constante de bem-aventurança.

Quando passei a sentir isso sistematicamente, em cada rompimento de um relacionamento que me ocupou durante quase três anos, percebi o quanto é valioso não lutar contra minha alma, mas, antes, ouvi-la.

Percebi isso numa tarde de paz em que estava no yoga, um caso interessante. Estava em casa e iria faltar ao yoga, por estar cansada. Mas, a certa altura, percebi que estava me sabotando e, com isso, levantei-me e segui para minha aula. Levei meu celular comigo, e, depois da aula liguei para meu então namorado. 

Muito gentil e atencioso, ao final, deu aquela facada: disse que meu celular havia tocado e que eu não precisava fazer aquilo... Que eu estava mentindo, que não estava no yoga. Em um impulso, retornei à sala e pedi para minha professora falar onde eu estava. Nem mesmo assim ele acreditou. E, com isso, foi-se o fim de uma história que, a bem da verdade, lá atrás, sempre me mostrou ser fadada a esse retumbante fracasso.

Falta de confiança. Falta de escuta e de compreensão. Talvez uma projeção da conduta dele, não sei, pois o retrospecto dele - não meu - acena para desdobramentos de verdades. Mas não se trata disso e, naquele dia, aos 43 anos de idade, descobri que sou eu quem deve decidir mudar a vida, e não a concepção das pessoas sobre a vida. 

Fiquei tão envergonhada em pedir para a professora de yoga fazer isso e me senti tão constrangida com minha fúria em expor minha vida para minhas colegas - não por elas, que são uns amores, mas por mim - que decidi não mais lutar. Não mais aparar arestas que sempre estão dirigidas a mim e à minha plenitude. 

Eis o sentido de ser livre: não me submeter à desconfianças de quem é inseguro com sua própria existência. Não devo provar inocência diante de um Tribunal do Ofício da Santa Inquisição androcêntrica, não mais. Esse incidente só revelou, ao final, o que estava embaixo do tapete e que apenas eu não desejava ver: o quão custoso é para minha plenitude e paz de espírito me colocar à disposição para a lâmina do algoz. Não serei vítima, mas protagonista da minha liberdade, corolário da soberania tão incompreendida pelo masculino atávico, que não se reelabora ou reinventa...

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Dia de Super Lua, dia de renovação!


A noite hoje promete! 

Hoje teremos uma Super Lua como nunca mais foi vista em quase 70 anos (1948)! Em uma super lua como essa, o perigeu lunar - ponto da órbita mais próximo da Terra - coincide com o plenilúnio, acarretando um aumento visual entre 10% a 30%. 

Um espetáculo!

A partir das 10h53, ela ficará um pouquinho fora de curso, ao mesmo tempo em que fica cheia (aqui por volta de 11h22), entrando em Gêmeos às 22h24. Como não poderia deixar de ser, o plenilúnio sempre marca a expressão máxima de potencial a ser explorado em termos de ação, mudança, movimento!

Alojada em gêmeos, lembra-nos da comunicação, de nossa capacidade de transmitir ao mundo nossos pensamentos, verbalizando as ideias e opiniões. Império ao ar e do mental, a combinação lua cheia e gêmeos tanto traz a facilidade de expressar, como a inquietude lunar aliada à pulsação geminiana. 

Assim, tanto podemos ter muita facilidade para expressão de pensamentos no dia de hoje, quanto entrar em confusão pelo excesso verborrágico. As emoções estão para lá de exacerbadas nessa segunda-feira, dia 14 de novembro, dia de Super Lua, recomendando a consciência no processo de oitiva interna. 

Dia maravilhoso para lunações, celebrações, ritos e potencialização de pedidos, pois o ar geminiano leva aos deuses e às deusas nossas mensagens e nossos pleitos. Ainda é véspera de feriado, viabilizando, assim, o aproveitamento máximo da noite! 

Com isso, desejo a todos e todas uma segunda-feira fantástica!

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Meus tesauros de felicidade: a arte do desapego

Fonte da imagem para créditos: http://www.frasesparaoface.com/wp-content/uploads/2015/02/pratique-o-desapego.jpg
Finalizo no domingo meu recesso na faculdade, uma espécie de semana sabática na qual alunos, alunas, corpo docente e administrativo recarregam as baterias para a finalização do semestre (do ano até! Como 2016 passou rápido mesmo...). 

Estou em casa, aproveitando a ida do jiponguinha para a oficina e dando prosseguimento à minha semana de desaceleração, componente integrante e vital dos meus tesauros de felicidade.

Tenho percebido esse ano que a seca não conseguiu ceifar o jardim de ervas, a seguir seu ciclo, firme e forte, provendo-me com tanta dádiva: usando comedidamente a água -  tivemos racionamento aqui - consegui manter as plantinhas nutridas e floridas, mesmo com todo contraste que o clima do cerrado nessa época oferece. 

As próximas etapas serão os retornos da compostagem e da reciclagem, pois ainda não experimentei as técnicas nessa nova casa. Na antiga casa, fiz uma composteira de chão, onde as minhocas fizeram a festa da oxigenação. Com isso, plantei e adubei uma amoreira, uma bananeira e um mamoeiro, destruídos pelos labradores maluquetes.  

A reciclagem tem sido feita, sobretudo, com o reaproveitamento das garrafas de suco de laranja que tanto amo. Minha geladeira está abastecida com muita água, bastando abrir a porta e observar o tanto de garrafas de plástico, que poderiam estar no lixão, mas que são úteis demais para nós.

Aliás, essa birra de plástico e de consumismo está atingindo patamares bem nítidos em mim. Recuso plástico. Lembro-me até, num ímpeto de desespero diante do plástico, de ter recusado um presente que meu irmão queria me dar: uma garrafinha plástica com um compartimento para chá. Ou seja, bem diferente, pois tanto acomoda água como chá, quente ou gelado.

Quando vi a garrafa - nada tem a ver com meu irmão oferecer - tive um surto de "plasticofobia", pois assustei e neguei. Estou fora do plástico sedutor (canecas, garrafas, copos, compartimentos, a vida se plastificou intensamente nos últimos tempos), tentando sensibilizar, ainda, colegas de trabalho, para que adotem a garrafinha. 

A cultura do consumo de canecas e repositórios bonitos é intensa e covarde, pois os formatos, as cores e as dimensões acariciam nossa mente-que-nem-sente que consome a pedir "mais, eu quero mais plástico". Evito sacola, optando pela mochila ou pela sacola reciclável. Mas, quando preciso de saco de lixo para banheiro, ao invés de comprar aqueles fardos, uso as sacolinhas armazenadas.

Outra maneira que encontrei de reciclar consiste em repassar as roupas que, por ímpeto, adquiri, nunca ou pouco tenho usado. Não se trata de doação para instituição - esse é outro tesauro - mas sim de um mercado de trocas, pois sempre estou ganhando algo e, portanto, sinto a necessidade de dar em troca. Compartilhar. Ganho tanto mimo da galera no trabalho que poderia abrir uma loja com tudo que lotaria!

Brinco, colar, bata, lenço, casaco, caneca, corujinha: tudo muito lindo e amoroso, pedindo, de outra sorte, o retorno ao Universo provedor. Falando em brechó, uma excelente maneira de não estimular a indústria têxtil, pois a aquisição de uma roupa usada retira da linha de consumo a aquisição de outra recém-saída da fábrica. 

Existem excelentes opções de brechós aqui em Brasília. 

Vou muito ao peça Rara, que tem uma proposta muito legal de movimentação e também de doação. Podemos entregar as roupas não selecionadas para que eles possam encaminhá-las às instituições necessitadas no DF. As lojas ficam nas comerciais da 307 sul, 408 sul (feminino, casa e infantil, além de outra masculina), 204 norte (feminino e infantil) e Águas Claras (feminino e infantil). 

Você se cadastra e pode levar as peças (dependendo da quantidade, precisa marcar o dia, ou, então, aguardar o encaixe, mas nada demorado não). O valor é recebido em espécie, depósito ou convertido em crédito para ser gasto na loja. Olha que legal a cadeia de sustentabilidade!


Fonte: https://2.kekantoimg.com/zB3gz4F016eXpXOB9u7JFJPwG_s=/fit-in/600x600/s3.amazonaws.com/kekanto_pics/pics/994/33994.jpg





Na 307 norte tem o Lixo Valioso, um lugar muito diversificado também. Fica num subsolo, bem underground, legal demais. O valor das peças é bem justo e honesto e você pode passar o dia todo olhando que não conseguirá exaurir o potencial do lugar. 

Além deles, a moda agora em Brasília é a feira múltipla, que reúne brechó, foodtruck, sustentabilidade etc. Nas entrequadras direto temos notícia de uma, geralmente nos finais de semana, momento em que a feirinha da Torre de TV também abre, com opções artesanais.

As roupas e os sapatos e sandálias artesanais são um ofício geralmente transmitido de geração para geração. Converso muito e descobri isso. Ou seja, sustento de famílias, por intermédio da confecção de peças únicas, exclusivas, ao contrário da padronização industrial, que nos aloja como robôs em uniformes. 

Trabalho belo!

Tem uns 10 anos, por aí, que minha arara acomoda roupa usada e artesanal, sobretudo tay day (aquele efeito borrado que ainda arriscarei fazer com água sanitária, tinta e barbante). Além disso, amo as botinhas da Torre, pois duram, são confortáveis e protegem os pés no dia-a-dia das atividades, sem deixar de mencionar que são estilosas mesmo! Lembram o bom e velho estilo bretão de ser, hahahaha.

Já que não posso ser bretã e andar a cavalo, optei por trocar meu carro urbano pela proposta de um jipe Bandeirante a diesel, mais eficiente em termos de sustentabilidade. "Nossa, não é muito velho?" - ouço sempre. Um carro. Estamos falando de UM carro com longevidade, fabricado para durar, não carro playmobil.

Vida útil de motor que pode perpassar minha própria existência, deixo de retirar da fábrica um carro novo a poluir o meio ambiente. Ainda mais aqui em Brasília, onde a média é 1 carro para três habitantes - apesar de eu sempre ver, a começar de mim, 1 motorista no carro. 

Quando buscar o jipe na oficina vou adotar um critério misto e, em alguns dias da semana, descer de baú, pois adorei a experiência de prestar mais atenção à vida e às paisagens. 

Investimentos? Bicicleta para ir ao yoga perto de casa, que também traz acréscimos, já que voltarei a fazer minha comida e, com isso, não terei tanto gasto na rua. Uns barris para começar a coletar água da chuva, a despeito de não estar sequer chovendo (um dia choverá cântaros, tenhamos fé!). Amaciante feito em casa: tenho saudade de quando fazia o meu, com a fragrância que me dava na telha.

Aliás, que semana agradável mesmo, cozinhando e voltando a me nutrir: o corpo agradece e a alma canta de suavidade! O foco, por agora, é continuar na senda quando as aulas retornarem.

Mas, claro, sobretudo, para que tudo isso dê certo, necessário um grande desapego do dinheiro, bem como das comodidades que ele oferece. Nesses dias sem televisão, em que apenas leio, medito e silencio, percebo o quanto é importante alimentar o espírito de simplicidade, pois dela exsurge o despojamento...

Eis uma síntese do tesauro desapego, elaborado progressivamente, sem dogmas, violência ou opressão à alma. Sendo apenas eu, nas idas e vindas dos ciclos que sempre se renovam dentro de mim!

domingo, 2 de outubro de 2016

Meus tesauros de felicidade: de carona na sustentabilidade, cada qual faz sua parte

Esses últimos meses tenho desacelerado: compreendido a necessidade de focar minhas prioridades, dentre as quais, o retorno gradativo à alimentação saudável, orgânica e fresquinha, necessária para a sensação de pertencimento à Gaia e aos benefícios que ela nos traz. Perto daqui de casa tem a Feira do Produtor, onde todo sábado uma comunhão de pessoas se forma em torno desse bem comum: natureza.

Lá é um espaço bem democrático, com todos os credos, todas as tribos e as pessoas mais diversificadas e lindas que em um lugar podemos encontrar. Sacolas recicláveis, sandálias de tecido, brincos, piercings, alargadores. Tudo em um lugar só, coexistindo com as famílias em seus carros importados, celulares caros. 

Que legal! 

Independentemente de qualquer estereótipo, observar o fluxo dessas pessoas em relação à consciência sobre alimentação traz um baita alento. Quer seja na senhora japonesa que vende sushi fresquinho, ou na banca de caldo-de-cana gelado, ou, ainda, na senhora do leite na garrafa pet - que faz um queijo para lá de fresco e de delicioso - tudo exala o frescor de uma vida alternativa ao sistema que tenta sucatear nossas almas.

Sim, existe um contra-fluxo! 

Uma contra-cultura alternativa, a motivar quem tem sensibilidade suficiente para perceber que o mundo está demandando uma conscientização coletiva, sob pena de simplesmente explodir de tanto consumo desenfreado e predatório. E ela começa aqui, dentro da gente!

Nessa vibração, certas revoluções são silenciosas, partem de um movimento interno de incômodo com a situação, ou, ainda, da simples necessidade de se reformular a alma. 

Trocar de pele é necessário para se manter a troca de oxigênio e conexão com a Natureza. 

Nesse sentido, a adoção de boas práticas de sustentabilidade e de desaceleração é algo cada vez mais premente em nossas vidas, pois mudar o padrão vibracional passa muito mais por se reconhecer protagonista da própria história do que baluarte de movimentos coletivos.

Ultimamente tenho feito uma senda de desapego, que veio como uma leve brisa, sem pressão, incômodo ou sofrimento. Já tentei o caminho à  fórceps, que utiliza a racionalidade do convencimento, mas confesso não ter dado certo. 

Descobri, então, que a revolução silenciosa da alma se faz pelo caminho do coração, por intermédio da empatia com a qual podemos nos enxergar no outro e, no caso, na Natureza que tanto nos dá: só assim conseguimos amar este planeta o bastante para transmutá-lo em prol de sua sobrevivência (e da nossa, claro!)

Estou sem sky em casa, não vejo mais os programas de tv por assinatura. Quebrei o controle  (desconfio que foi ato inconsciente para me desapegar mesmo) e estou esperando chegar outro que perdi de vista. Bom, bom, bom demais. Um dia ele chegará. Mas, até lá, tenho me observado mais, recolhido mais. 

Sem distrações para me desviar, assisto a filmes na internet, leio, interajo com o povo daqui. Tenho cuidado melhor da alimentação (hoje mesmo comemos uma bacia de salada e maionese caseira, algo que nunca imaginei conseguir fazer). 

Plenitude, eis o sentido.

Fiquei e estou sem carro: meu jipe ficou sem freio, eu e meu namorado protagonizamos uma cena de Flinstones e até minha coluna se contorceu, o bastante para me mostrar, em mais um processo de somatização, que preciso me despojar, ainda mais, das cobranças internas. Da vida de tensão que levo no dia-a-dia. 

Coluna se recompondo, tenho andado muito de ônibus e até encontrei alguns alunos, que se assustaram em ver a professora de baú. Cada viagem é realmente uma viagem, pois observo atentamente as pessoas ao redor, envolvo-me com a vida que está aí, pulsando.

Cheguei a marejar lágrimas nos olhos com a simples despedida do meu namorado na rodoviária. Momento inesquecível de despojamento de tudo. Não havia conforto ou segurança que compensasse o aperto no coração de um "até logo" em um terminal lotado. isso é divino e belo! É a síntese da percepção do quanto somos queridas e amadas, o bastante para o sacrifício de outrem por nossa felicidade...

Realizo-me na simplicidade de um movimento esquecido na contemporaneidade, tão ocupada com facebook, whatsapp e redes sociais. 

Passei a observar mais o que, de súbito, dentro de um carro, não consigo, ainda que dirija um jipe, de onde é possível imergir no horizonte sem fim... As cores, as flores, a vida: tudo passa, como em uma estação de metrô, átimos de segundo que ficaram para trás, mas que trazem do desejo, cada vez maior, de simplesmente deixar tudo de pesado, de desconfortável e inútil, também para trás.

Quando não estou em um ônibus estou à pé: outra aventura. Fui a uma aula experimental gratuita de yoga perto de minha casa - não tão perto, uns 5 quilômetros. Peguei o baú de integração e desci na parada,  fazendo o restante do percurso - 1 quilômetro de estrada de chão - a pé. 

Essa foto aí ao lado é de lá. Caminho providencial, pois em cada passo, uma respiração, uma percepção sobre minha vida e o que realmente é necessário de bagagem nela. 

Cheguei a tempo...O tal do tempo que sempre marca as desculpas para nossos processos de sabotagem. mas, desta vez, levei a melhor e adivinhem? 

Não me sabotei! 

Andei com meu tapetinho surrado pelas unhadas dos gatinhos daqui de casa até encontrar o Empório da Mata, lugar lindo, maravilhoso, que me remete à primeira Festa Medieval que fui (a melhor e mais lúdica, com direito a trapezistas de fitas e tudo mais).

Aula boa, vento soprando e pássaros cantando em harmonia com a minha alma...Belo, pleno e vigorante! Presença da Natureza em cada ponto mais abscôndito da minha alma. O que está havendo comigo? Bem-aventurança, simples assim.

Como não amar o caramanchão com tsurus pendurados? O céu beijando as copas das árvores e a grama verdejante? Como não sentir nas entranhas a energia vital deste planeta a colorir o espírito com a suavidade do amor?

Eis a questão: sentimos... É necessário sentir para saber. Uma vez escutar de uma pessoa a seguinte frase: "para saber, tem que voar", lembrando-me dos desafios que um sistema consumista e predatório nos impõe. 

Nesses momentos de crise pandêmica, a potencialidade humana de resiliência sempre fala mais alto, acalentando-nos com a esperança de que tudo ficará melhor quando nossa alma está disposta a ser melhor.

Tenho desejado falar menos. Aliás, a irritabilidade com a falação dos outros só mostra minha agitação interna, bem como o desejo de pacificar minha alma da reverberação que eu mesma provoco com a tonelada de pensamentos que ora me fazem retornar para o passado, ora me impelem para a ansiedade de um futuro em relação ao qual não tenho o menor controle.

Tenho comido mais orgânicos e me desintoxicado com a culinária vegetariana e vegana. Tomado óleo de côco (também passo nas pontas do cabelo, nutrindo e hidratando), própolis e pólen, já exausta de organismos mortos que se veiculam a partir do paradigma alopático.

Dia desses fomos - turma de yoga - almoçar em um restaurante chamado Veg Gourmet, que fica no Brasília Rádio Center. Preço justo, executivo vegano de primeira linha, lindo, belo, nutritivo. Uma comida que dialoga conosco e nos remonta à felicidade trazida para o estômago.

Meu desafio, por agora, resume-se a comer mais devagar, a mastigar mais e melhor. Isso ajuda, creio, na paciência que me falta. Mas, pouco a pouco, ao esvaziar alguns quartos de despejo da minha vida, creio que irei naturalmente me desestressar. 

Aliás, a revolução silenciosa já começou, ainda que preparada por intensas discussões. Tenho procurado me desestressar com o que não faz parte do meu círculo de variáveis modificáveis. 

Passo até por alienada política, mas, de fato, estou contemplando os últimos dias de  Pompéia, tal qual uma atenta observadora prostrada no Monte Vesúvio, esperando o movimento planetário de mudanças somente perceptíveis para quem desistir de achar responsabilidade fora de si...

Tenho olhado até mesmo para o sistema com amorosidade. Sem ira, indignação, afinal, querendo, ou não, ainda sou grata a ele, com todos os defeitos. Assim como sou grata por minha existência, com todos os meus defeitos, como sou com outras pessoas. 

Apenas respirando. Acho que realmente precisamos respirar mais...

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Meus tesauros de felicidade: integrando corpo e alma no fluxo do yoga

Fonte para créditos da imagem: https://www.osegredo.com.br/wp-content/uploads/2015/04/flor-de-lotus-branca.jpg
Comecei minha senda no yoga em 2005, por indicação de um grande amigo, que me sugeriu a prática da querida Kátea Barros na Universidade de Brasília. Antes do yoga já tinha feito um pouco de muita coisa: ginástica olímpica, ballet, jazz, andado de patins, natação, atividades físicas necessárias para a manutenção da saúde (e, por resultado, da forma física). 

De todas essas atividades, a natação sempre foi a minha preferida. 

Gostava da liberdade, do silêncio e da solitude em cada braçada dada, deslizando na superfície e me desconectando do mundo sólido. Chegava a nadar 8.000 metros - quando competia, na adolescência. Dedicação, disciplina, foco, eis o que me guiava.

Em 2005, contudo, meu mundo se abriu para algo novo, que nunca havia imaginado fazer: yoga. Aliás, dada minha hiperatividade, eu achava - de forma preconceituosa - que yoga seria um tédio...afinal, ficar "parada", "falando om" não parecia me apetecer em termos de atividade "física" (lembram dos 8.000 metros de natação?).

Nossa, como eu estava completamente enganada! Hahaha, e como estava, em todos os sentidos!

Logo no primeiro dia de aula de yoga, levei um susto: descobri que não sabia respirar direito. Enviava o ar para os pulmões, alojava tudo no tórax, como o instrutor de natação orientava. 

Resultado: sempre ofegante, nervosa, não conseguia me concentrar direito fora da piscina. Como não poderia ficar a vida toda dentro d'água, fui quicando de atividade em atividade, torcendo para que algo aplacasse minha ansiedade incontida.

Foi um renascimento observar a ondulação dos músculos abdominais: o ar entrando, os músculos da barriga dilatando, o ar saindo, a barriga encolhendo. Ar entra, preenche tudo, a retenção me preenche, o ar sai, seca tudo e o vazio se plenifica. 

Pouco a pouco essa atividade aparentemente simples foi mudando minha vida, pois o afã descomedido começou a ceder espaço para a busca de momentos de quietude, como o da respiração. Com o yoga veio a meditação, a arte de conexão com o sagrado, por intermédio do esvaziamento da mente, para focar apenas a respiração

A partir dela - claro, tudo gira em torno da respiração, pois é ela que nos mantém vivos no agora - meus músculos foram se irrigando, tonificando, minha elasticidade se ampliando e cada parte do meu corpo foi se soltando, pouco a pouco.

O incentivo para uma reelaboração da dieta alimentar foi enorme no yoga, sobretudo quando comecei a me inteirar sobre a ayurveda, bem como sobre os sistemas de doshas, energias primordiais que nos estruturam. Foi, então, que descobri ser o yoga uma SENDA, um caminho integrativo da mente, do corpo e do espírito.

Yoga é uma palavra em sânscrito com plurais significados: integração, união, junção, senda que utiliza o pranayama (respiração) e os asanas (posturas) para integração da mente e do corpo, superando, assim, o dualismo, e nos ancorando no aqui e no agora para a plenitude consciencial.

Nem passado, nem futuro. 

O yoga nos remete ao instantâneo, que é a respiração, ato sagrado de junção com o Tudo, muitas vezes neglicenciado por essa pressa incontida, robótica, que insistimos em nos colocar. 

Excelente forma de descobrimento do corpo, o yoga nos prepara para a imobilização do processo meditativo, comunicando e conscientizando o corpo material a respeito do imediato - aqui e agora- ao mesmo tempo em que traz foco para a inquietude mental, na medida em que as respirações se harmonizam com as posturas e a permanência. 

Fui descobrindo meu corpo, as limitações que impus a ele em meio a processos psicossomáticos e, sobretudo, as superações dessas limitações. Esse ano fiquei surpresa e feliz quando, finalmente, consegui colocar meu calcanhar inteiro no solo ao fazer a postura do cachorro, pois, antes, a falta da flexibilidade me fazia levantar o calcanhar para alinhar a postura. 

As invertidas sobre a cabeça ainda são meu desafio, mas, pouco a pouco tenho me permitido avançar, sempre dentro do meu limite e respeitando o princípio sagrado da não prática de violência. 

Durante minha trajetória, algumas pessoas marcaram e têm marcado meu amor pelo yoga, eu não poderia deixar de comentar a respeito, até para compartilhar seus contatos, pois são excelentes professoras. Recomendo todas as práticas, cada qual com sua peculiaridade. 

Vou compartilhar um pouquinho o que SINTO em cada uma das práticas: não sou dona da verdade, muito menos as práticas das professoras se esgotam no que estou a pontuar aqui, dadas as amplitudes de cada uma. O que estou dividindo consiste nos aspectos que PARA MIM (ou seja, minhas demandas pessoais) saltam aos olhos. 

Também não quero incorrer em comparações: não se trata de colocar ninguém ao lado de ninguém: cada pessoa é um universo. Creio que as experiências distintas dão uma boa percepção para que as pessoas possam fazer suas escolhas empaticamente. 

Kátea Barros, minha primeira professora de yoga. 

Um ser etéreo, que flutuava na sala, bailando enquanto nos explicava cada um dos benefícios das posturas. A prática com ele era sempre imersa em uma egrégora, dando-me a sensação de estar na companhia de seres etéreos. 

Hoje ela está morando em outro Estado, mas sempre estou com sua amorosidade. Com ela aprendi que o yoga não consiste em uma "maromba zen", sendo uma prática a aliar os corpos espiritual, físico e mental. Aliás, em sua aula consegui, pela primeira vez, entrar em estado meditativo. Que benção a Katita!

Priscilla Almeida, com quem aprendi não só a ter disciplina, mas a investir no coletivo, pois fazia parte de um grupo que se reunia em uma casa e, após as práticas, tomávamos leite de amêndoas. A convivência com ela me enriqueceu de receitas, reflexões sobre minhas limitações. 

Marise Armondes, no Plenitude Yoga, o lugar mais fofo, lúdico, etéreo e mágico em que tive oportunidade de fazer a prática!!!!

Fica no Guará I, num sobrado fantástico, todo ambientado para uma prática confortável. A Marise tem uma abordagem clássica, a partir do hatha yoga integrada à vinyasa flow. A prática é fluida, com a passagem de um asana a outro de forma lânguida.

Além de explicar pontualmente os benefícios das posturas, a Marise mantém em seu espaço um ambiente onde expõe e vende produtos maravilhosos, desde pães sem glúten e lactose, até óleo essencial e um "cheirinho" para ambientes que, até hoje, nunca senti aroma igual. 

Formamos um grupo no trabalho (2015) e convidamos Patrícia Kratka para nos guiar na árdua tarefa de desacelerar no ambiente laboral. 

Amorosa, cumpriu a tarefa com super dedicação, pois suas aulas sempre envolviam o acesso a um acervo diversificado de posturas, interpoladas com os exercícios de respiração e foco nas posturas de torção e retroflexão (por causa da Patrícia eu passei a amar as torções e a investir, em casa, nelas), o que me trouxe uma serenidade!!!

Antes de sair em um mochilão pelo mundo, chegamos a transferir as aulas para o Parque Olhos D'água, local mais do que apropriado para a conexão com o sagrado. Adorei, em especial, esse momento de pura elevação.

Esse ano resolvi praticar yoga perto do meu trabalho, na hora do almoço, para desestressar do cotidiano. Encontrei a Sociedade Vipassana de Meditação, onde conheci duas pessoas maravilhosas. 

Primeiro conheci a Soraya Diniz Farah, ariana nascida no mesmo dia do meu aniversário. As aulas seguem várias linhas - bem explicadas e definidas -segundo a sistematização com que ela, com afinco, faz em cada semana. 

Sempre com o foco na respiração e na construção correta do asana, não sem antes ela fazer questão de frisar a importância da não violência ao corpo. Na prática da Soraya eu consegui ajustar o calcanhar ao solo adho mukha asana, a postura do cachorro. 

Também acho legal a explicação que ela dá sobre os órgãos beneficiados pela prática, bem como a preocupação com cada um dos alunos e das alunas, ao ponto de orientar a prática do dia para um aspecto específico levantado por alguém do grupo. 

A partir da interlocução com o grupo e a Soraya, tenho tomado consciência de processos internos que estavam latentes, mas alojados no quartinho de despejo. Um verdeiro trabalho de autocura, a partir do diálogo com os colegas de prática. 

Aliás, temos o grupo no whatsapp onde postamos pensamentos, eventos, fotos. A Soraya mantém, ainda, uma vasta network, divulgando terapias e eventos por meio da Ecomind, tanto no blog, quanto no facebook. Vale muito a pena dar uma passadinha lá.

Depois de fazer aulas com a Soraya às segundas e quartas, decidi investir mais em mim e também fazer às terças e quintas, ou seja, quase todos os dias. Com isso e, sobretudo, com a ideia pragmática de estar perto do meu trabalho, conheci o trabalho da querida Denise Maria Lemos, que desenvolve o trabalho em hatha com yoga hormonal. 

Suas aulas me fazem aterrar e, paradoxalmente, transcender. 

Como? 

Não sei explicar, mas a sensação, ao final de cada encontro, é de me elevar: parece que meus elétrons param e meu corpo deixa de ser um organismo distinto do ambiente. 

Fusão ao todo seria uma forma menos precária de tentar explicar a sensação de plenitude e benignidade a partir da prática, que foca o tempo de permanência (longo) nas posturas, o que demanda respiração. 

Tudo também muito explicado em termos de benefícios e órgãos envolvidos. Por intermédio da Denise, conheci o almoço maravilhoso do restaurante Supren Verda, local aprazível e preocupado com alimentação vegana de qualidade.

Essa reconexão tem operado modificações sem precedentes em minha vida. 

Retomei um caminho do qual havia me apartado há tempos: autoconhecimento. Redescobri, por intermédio da integração proporcionada pelo yoga, o prazer de me acarinhar com as posturas, a respiração, a meditação e, ainda, automassagem com óleos essenciais.

A benignidade, bem como a plenitude, são estados de espírito cuja escolha nos traz benefícios profundos na alma. Sempre que posso, recomendo aos amigos e às amigas a saída dessa egrégora caótica em que estamos na contemporaneidade, para estabelecer o encontro com nossas verdadeiras essências...

Eis a razão pela qual o yoga, a meditação e demais práticas integrativas constituem meu acervo de tesauros de felicidade!!!!

Plenitude Yoga: QE 19, conjunto E, casa 14, fones 61 99278 8597 (Claro) e 98305 4339 (Tim) - e-mail: plenitudeyoga@gmail.com

Sociedade Vipassana de Meditação: SGAN, quadra 909 "E", fone 61 984812187.


domingo, 24 de julho de 2016

Cem dias de plenitude e celticidade: amizade

Disponível (avaliable): https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/60/f9/c4/60f9c46f06e82a3d62b8a293e6fa7167.jpg, acessoem 24 de julho de 2016.
Tem sido recorrente prática no meio pagão a postagem de uma série de reflexões sobre o percurso ou a jornada no autoconhecimento, independentemente da tradição (http://100diaspagaos.tumblr.com/).

Druidas, bruxo/as familiares, simpatizantes e wiccano/as, não importa: o/a iniciado/a que irrompe rumo à experiência na senda de conexão ao Sagrado e à ancestralidade apõe em uma espécie de diário de campo - usualmente por 100 dias- dia após dia, sua saga heroica, pois ela representa o pano de fundo de sua própria história

Na postagem anterior, chamada Meus tesauros de felicidade: o retorno à ideia mágica de simplicidade no viver, listei uma série de thesaurus de valor para o que considero uma vida plena e feliz na simplicidade. Com essa percepção bem vívida, decidi aliar o propósito de compartilhamento do meu percurso na vida ancestral com os cem dias de narrativa do significado que esse rito de passagem adquire para mim.


Listei tesauros de hoje, com os quais começarei meu novo ciclo de aventuras são: amizades, reciprocidade, veracidade, transparência, desapego, adeus, olá. O tema inicial não poderia ser outro mesmo: AMIZADE, pois ela constitui o suporte ou alicerce para que o/a iniciado/a possa galgar os obstáculos sentindo-se acalentado/a pela força e pelo carinho que apenas os vínculos fraternos e clânicos podem propiciar.

Os celtas nunca foram conhecidos por uma unidade política, sempre optando pela vida em clãs distintos sem um poder central - em face de seu espírito libertário, independente e sem amarras - cada qual sob o jugo de um líder escolhido pela força, honra, determinação e coragem (bem diferente dos tradicionais sistemas de consanguinidade e nobreza). 


Dani (e) e eu (d)
Tais nichos - quase sempre reunidos em volta do vínculo de sangue - criavam a atmosfera perfeita para que, na figura do clã, os laços mais fortes e profundos pudessem ser firmados, estabilizando internamente a tribo, bem como a fortalecendo diante dos inimigos (vide o  texto Resgatando os tempos antigos de honra no bom combate).

A amizade, assim, era o ponto de apoio que atrelava os membros do clã em uma sociedade celta, mantendo a solidariedade entre os indivíduos. Liames invisíveis, pautados no empenho da palavra, bem como na honorabilidade de se portar em uma retidão de caráter eram a tônica a transformar a amizade em uma verdadeira corrente sinérgica de força, uma egrégora de poder incomum.

Por mais que o/a iniciado/a decida percorrer a senda no caminho solitário, formar profundos e autênticos vínculos de amizade é importante para obtenção do apoio necessário ao curso da trajetória


Tulio (e) e eu (d)

As amizades verdadeiras - que enfrentam vicissitudes e intempéries - são o poder secreto sempre à disposição do inciado/a. Não era à toa que as corporações druídicas nas sociedades celtas se firmavam a partir de conselhos de anciões, ou, ainda, nos covens, permanece a prática de se reunirem os membros para comunhão de afinidades. 

Nas tradições familiares, a conexão pelo sangue já imanta, no plano físico, a materialização do elo entre os membros. Laços são fundamentalmente o material energético a coligar pessoas que se lançam no mundo mágico. A amizade, então, passa a ser um substrato invisível, mas forte e contundente, a alimentar sintonicamente as pessoas cujos corações reverberem em consonância.

Daí o segundo tesauro, a reciprocidade, como resultante de um vínculo clânico de fraternidade, a partir do qual se elabora uma tessitura de relações - expectativas e demandas - firmadas na mutualidade, ou seja, em laços de devolução, restituição e/ou compensação. 


Tulio (e), eu (c) e Zeca (d)

Longe do conceito romanista de obligatio, a ideia aqui contextualiza-se em uma dimensão moral, diáfana, que se confunde com a manutenção da paz no grupo (lembrando que a ordem de paz, para os celtas, possui um profundo significado imanente de revelação dos deuses, ancestrais da casa). 

Não existe cobrança, uma vez que que a reciprocidade lança ao mundo o propósito de se honrar com a palavra e a conduta leal, inalcançáveis por contrato ou tratado.

Aliás, um excelente parâmetro para se perceberem arremedos de amizades: descompasso no fiel do tratamento dispensado. Lembro-me de haver convivido com uma pessoa que me foi muito querida. Convidava-a para os solstícios, equinócios e celebrações lunares, trocava confidências, enfim, vivenciava a percepção de vínculo. 

Detalhes, porém, começaram a se avolumar: percebi nunca ser convidada para sua casa (para o celta, a casa é a própria alma do membro do clã, sendo ato de mais valiosa honra o convite para ingresso em uma residência), suas celebrações, seu mundo. Minha presença em sua vida era bem interessante quando essa pessoa me procurava para tirar dúvidas, solicitar material. Ou seja, uma seta unilateral.

Citei esse exemplo para me aprofundar na importância que a reciprocidade adquire como um termômetro do que significa um elo de amizade entre pessoas que se dizem afins uma da outra. 

Não se espera porque não se faz necessário esperar: o vínculo é tão espontâneo que o compartilhamento se intensifica com o transcurso do tempo. 

O/as verdadeiro/as amigo/as abrem as portas de seu coração, sua alma e sua casa, para abrigar em pouso fraterno quem desejoso está de um bom travesseiro para recostar a cabeça depois de um dia de batalhas. Essa é a verdade do vínculo, a veracidade do propósito de se compartilhar uma vida com seres amados o bastante para que possamos desembainhar a espada em sua defesa.

Diziam os romanos que os celtas, quando não estavam em guerra, costumavam brigar entre si para manterem a forma... Amigos e amigas discutem, brigam, exaltam-se: esse é o resultado de não se usar máscara e se colocar na lisura de alma para conversar sobre as divergências. Depois aquietam a alma, respiram fundo e, cada qual, pondera. O grupo pára, reflete. A egrégora solidária se pacifica. 

A transparência é, pois, requisito essencial, dentro dos tesauros de amizade, para que os verdadeiros laços sejam amorosamente apertados, compondo, assim, o triskelion clânico onde inexiste distinção entre início e fim.

Quando fui percebendo isso, naturalmente comecei a agradecer pelo tempo em que meu caminho andou com o de outrem, bem como a me despojar da presença das pessoas em minha vida. Não, não, não tem a ver com O/A OUTRO/A. Não há culpa, responsabilização do/a outro/a, mas, mas, antes, protagonismo na decisão. 

Decidir não estar com outra pessoa apenas e tão somente porque não se faz mais necessário o percurso para que ambos extraiam dele a virtude da sabedoria. Afinal, na constância do eterno retorno da vida-morte-vida, estamos a encontrar pessoas, reencontrar outras e estabelecer ligações que vêm e vão na espiral cósmica. 

Não se trata também da percepção vitimista de eliminar o outro por não corresponder às expectativas, mas, antes, de uma languidez de alma centrada, que leva à internalização do rompimento sem o conflito quanto à responsabilização. 

Aliás, percorrer a senda iniciática é, sobretudo, ser protagonista das escolhas. 

Deixei de usar meu tempo disponível na tentativa de investir em algo que ilusoriamente só existia em minha mente condicionada e, com isso, comecei a decidir de outra forma. 

Deletei contato, apaguei telefones. Não porque desejei fazer de rompante, mas porque percebi que manter na memória do celular um número para o qual nunca ligava e do qual não recebia ligações não fazia sentido. 

O adeus é importante, ainda que achemos ser visceral o vínculo que nos une a quem consideramos [basta lembrar o abrupto corte com a mãe, quando o cordão umbilical cingido nos remonta à necessidade de respirar por conta própria]. 

É preciso deixar sair o antigo para que novos processos possam adentrar a nossa porta! O olá a novos percursos é essencial para a manutenção do equilíbrio universal. 

Simples assim! 

Amigos e amigas se falam, estando longe ou perto. Sabem hábitos uns dos outros, perguntam sobre a vida, a família, choram. Sabem quando vir, bem como quando sair. Uma benção separar por vínculo quem realmente nos quer bem. Saber ouvir a voz do coração para estar próximo a quem verdadeiramente chamamos de amigo ou amiga é cumprir a primeira etapa iniciática em novas vidas: formar laços sinceros, autênticos e leais!

Céad mille fáilte!


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